Campanha We Try Harder: lições da Avis para marcas
A Avis assumiu que era a segunda maior locadora e fez disso uma razão para o público escolhê-la. Entenda a estratégia e como aplicar essa clareza na sua marca.

Campanha We Try Harder foi a resposta da Avis a um problema que muitas empresas prefeririam esconder: a marca não era líder em seu mercado. Em vez de fingir que ocupava a primeira posição, a locadora assumiu seu lugar atrás da Hertz e transformou essa condição em uma promessa objetiva ao cliente: por ter mais a provar, se esforçaria mais.
Resumo rápido:
- A Avis usou sua posição de segunda colocada como ponto de partida para o posicionamento.
- “We Try Harder” ligou uma fraqueza aparente a um benefício concreto para o consumidor.
- A campanha funcionou porque era simples, coerente e podia orientar anúncios, atendimento e operação.
- Marcas brasileiras podem aprender a competir por clareza e serviço, sem imitar a comunicação do líder.
Campanha We Try Harder: o contexto da Avis
No começo dos anos 1960, o mercado de aluguel de carros nos Estados Unidos tinha uma liderança bem estabelecida. A Hertz era a referência mais lembrada, enquanto a Avis ocupava a segunda posição. Para uma marca nessa situação, existiam dois caminhos previsíveis: tentar parecer maior do que era ou copiar a linguagem de quem já dominava a categoria.
A Avis escolheu um terceiro caminho. Com a agência Doyle Dane Bernbach, apresentou uma ideia que reconhecia a realidade competitiva e mudava sua interpretação. A frase central dizia, em tradução livre: “Somos a número dois. Por isso nos esforçamos mais”. A mensagem não pedia pena, nem fazia uma comparação vazia. Ela criava uma expectativa clara: uma empresa com menos folga teria mais motivo para cuidar dos detalhes.
Os anúncios desenvolveram essa lógica com argumentos do dia a dia, como carros mais limpos, atendimento mais atento e maior dedicação em cada locação. Não era apenas um slogan colocado no rodapé. Era uma plataforma para explicar por que o consumidor poderia considerar uma alternativa à marca líder.
Por que a ideia funcionou
A força da Campanha We Try Harder estava em dizer algo que o público já podia perceber e, logo em seguida, atribuir um novo significado a esse fato. A Avis não negava a liderança da concorrente. Ao admitir sua posição, ganhava uma qualidade rara em publicidade: credibilidade.
Esse gesto reduzia a distância entre marca e consumidor. Pessoas costumam desconfiar de empresas que se descrevem como perfeitas, imbatíveis ou superiores sem demonstrar motivo. Já a Avis apresentava uma limitação e mostrava qual seria sua consequência positiva. A vulnerabilidade não era o fim da mensagem; era o começo do benefício.
Também havia uma boa relação entre frase e categoria. Em locação de veículos, a experiência depende de diversos pontos operacionais: reserva, retirada, estado do carro, devolução e suporte. “Tentar mais” poderia parecer abstrato em outro setor, mas ali apontava para comportamentos que o cliente conseguia observar.
Por fim, a campanha tinha repetição inteligente. A mesma ideia suportava muitos anúncios sem se esgotar rapidamente. Em vez de trocar de conceito a cada peça, a Avis encontrava novas provas e situações para reforçar a promessa. Consistência não significa publicar sempre a mesma arte; significa manter reconhecível o motivo pelo qual a marca merece ser escolhida.
Uma promessa que exigia entrega
Há uma diferença decisiva entre uma frase memorável e um posicionamento útil. A primeira pode chamar atenção por alguns segundos. O segundo precisa influenciar decisões reais dentro da empresa. Quando a Avis dizia que se esforçava mais, o público podia cobrar esse esforço no balcão, no telefone e no veículo entregue.
Essa é a parte menos glamourosa e mais importante do caso. A publicidade abriu uma expectativa operacional. Se o atendimento fosse indiferente ou se a experiência contrariasse a mensagem, o slogan se voltaria contra a própria marca. Uma campanha de posicionamento não corrige um serviço ruim; ela torna o serviço ainda mais visível.
Para empresas menores, esse princípio é especialmente relevante. Uma marca local não precisa vencer concorrentes maiores em verba, alcance ou volume de publicações. Pode vencer em uma promessa específica que consiga cumprir melhor: resposta rápida, especialização em um nicho, diagnóstico mais próximo, processo mais simples ou acompanhamento após a venda.
A clareza visual e verbal também ajudou a transformar a ideia em ativo de marca. Quem trabalha uma proposta consistente em anúncios, vídeos, páginas de venda e redes sociais constrói reconhecimento com o tempo. Projetos de identidade e campanha precisam fazer essa ponte entre conceito e execução; exemplos desse tipo de construção podem ser vistos no portfólio da Ampside.
O que evitar ao seguir esse exemplo
Assumir a segunda posição não funciona como fórmula pronta. A lição da Avis não é declarar que sua empresa é menor ou usar a concorrência como muleta em toda comunicação. A lição é encontrar uma verdade competitiva e transformá-la em uma vantagem verificável.
Evite afirmar que sua marca “se importa mais”, “tem mais qualidade” ou “oferece o melhor atendimento” sem explicar como isso aparece na prática. Essas promessas são comuns demais para diferenciar alguém. Troque adjetivos por evidências: prazo de retorno, método de trabalho, especialização, formato de entrega ou um critério claro de suporte.
Também não crie uma narrativa de desvantagem permanente. A Avis não se apresentava como incapaz de competir; apresentava-se como uma alternativa empenhada e competente. O tom da comunicação precisa transmitir segurança. Humildade sem proposta de valor vira insegurança. Comparação sem foco no cliente vira provocação gratuita.
O que isso muda para o seu marketing
Para empresas, agências e criadores brasileiros, o caso mostra que posicionamento não começa pela tentativa de parecer grande. Começa por decidir qual diferença a marca consegue sustentar. Antes de produzir uma campanha, faça três perguntas: qual percepção o mercado já tem sobre nós, qual benefício real nasce dessa condição e que prova pode aparecer em cada ponto de contato?
Na prática, teste uma mensagem central em anúncios, roteiros de vídeo, bio das redes sociais e landing pages. Se sua empresa é especializada em um segmento, não diga apenas que “entende do assunto”: mostre o processo, os problemas que conhece e os formatos de entrega que desenvolveu para aquele público. Se você responde mais rápido, transforme a rapidez em compromisso operacional antes de promovê-la.
Agências podem usar esse raciocínio para fugir de briefings genéricos. Em vez de começar por uma estética ou por uma tendência de rede social, procure a tensão competitiva da marca: ela é nova em uma categoria tradicional? É menor, mas mais especializada? Simplifica algo que o mercado tornou burocrático? É daí que pode sair uma plataforma de comunicação duradoura.
Criadores, por sua vez, podem aplicar a mesma lógica ao próprio posicionamento. Não é preciso competir com perfis maiores em frequência ou produção. Um recorte editorial claro, uma linguagem reconhecível e uma entrega consistente costumam gerar mais valor do que a tentativa de falar com todos.
Copie da Avis a coragem de ser específico e a disciplina de conectar promessa à experiência. Não copie a frase, a comparação direta ou a estética de uma campanha de outra época. O valor do case está no método: transformar uma verdade da empresa em um motivo relevante para o cliente escolher.
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Perguntas frequentes
O que significa “We Try Harder” da Avis?
Significa “nós nos esforçamos mais”. A frase foi usada pela Avis para transformar sua condição de segunda colocada em uma promessa de maior dedicação ao cliente.
Por que a campanha da Avis é considerada clássica?
Porque combinou uma admissão honesta sobre a posição da marca com um benefício simples, relevante e fácil de desenvolver em várias peças publicitárias.
Uma empresa pequena deve se comparar ao líder do mercado?
Somente se a comparação ajudar o cliente a entender uma vantagem concreta. Em muitos casos, é mais eficiente comunicar a própria especialização e as provas que sustentam a promessa.
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